Lápis Mágico

O lobo e o cão

Jean de La Fontaine escreveu a fábula O lobo e o cão baseada na de Esopo.

O lobo e o cão, fábula de La Fontaine baseada na de Esopo

Certo dia, um Lobo só pele e osso encontrou um cão gordo, forte e com o pelo muito lustroso. Via-se bem que não passava fome. O Lobo, admirado, quis saber onde é que ele conseguia obter tanta comida.

— Se me seguires, ficarás tão forte como eu - respondeu o cão. - O homem dar-te-á restos saborosos.

— Mas o que preciso de fazer em troca? - quis saber o Lobo.

— Muito pouco, na verdade - respondeu o Cão. - Uivar aos intrusos, agradar ao dono e adular os seus amigos. Só por isto receberás carne e outras iguarias muito bem cozinhadas. De vez em quando, receberás também festas no dorso.

O Lobo ficou encantado com a ideia e meteram-se ambos ao caminho. A dada altura, o Lobo reparou que o cão tinha o pescoço esfolado.

— O que tens no pescoço? - perguntou.

— Nada de grave. É da argola com que me prendem - explicou o Cão.

— Preso? Então não podes correr quando queres? - exclamou o Lobo. - Esse é um preço demasiado elevado: não troco a minha liberdade por toda a comida do mundo.

Dito isto, desatou a correr o mais depressa que pode para bem longe dali.

Moral da história: A tua liberdade não tem preço.

Fábula de La Fontaine


Versão II O Lobo e o Cão

Não tinha um lobo mais do que a pele e o osso.
Sinal é que, de orelha arrebitada,
Bem vigilante andava a canzoada. Encontra o lobo um cão, forte, grosso,
Nutrido, luzidio, uma beleza!
Que distraído abandonara a estrada.
Sorri-lhe a nédia presa.
Saltar-lhe logo ali, fazê-lo em postas
O seu desejo fora. Dura empresa!
A luta era infalível. Voltar costas,
Não usam perros quando são valentes,
E, mais, os brutos!, Dão às vezes cabo
Do fero contendor! Diabo!… Diabo!
Então aquele, com aqueles dentes!
Humilde o lobo, pois, encolhe a cauda;
Chegasse ao cão; abaixa-lhe a cabeça;
Puxa conversa; diz que folga em vê-lo,
Que deixa que ele admire, que ele aplauda
Topá-lo assim… e com tão bom cabelo!…
E rijo! E gordo! Um frade! Uma abadessa!
— Esplêndido senhor. — O cão responde —,
De vós depende o ter igual gordura.
Fugi dos bosques, onde,
Por teima da desgraça,
De fome e frio só achais fartura,
Vós, senhor lobo, e a vossa pífia raça.
Dias e dias sem comerem nada!
E lá por festas, raras, esquecidas,
Um petisquinho conquistado à espada,
Tragado às escondidas!
Ai é certa a morte!
Furtais-vos a seus braços!
Segui, segui meus passos;
Tereis outro destino e melhor sorte.
— Mas como? — volve o lobo.
— Fazer então que devo?
— Bagatela:
Nem morte de homem. Nem de igreja roubo;
Simplesmente estas coisas: não dar trégua
A santa gente rota, mendicante,
Bordão numa das mãos, noutra a tigela,
Que vem inda à distância duma légua
E já tresanda a essência de tratante.
Lamber as mãos ao dono; ser submisso…
Dar coca — é o termo próprio — ao dono e a todo
Quanto bicho-careta houver em casa.
Salário apanhareis que vos apraza:
Ossos das aves, rodas de chouriço,
Restos vindos da mesa, e tudo a rodo!
Até uns tagatés em cima disso!
Tendo prestado ao cão atento ouvido,
O lobo, coitadinho!,
Com perspetiva tal enternecido,
Não tugiu nem mugiu, mas fez beicinho!
Iam a caminho já do povoado,
Quando o lobo notou que no pescoço
O cão era pelado!
— Que tens aí? — pergunta com alvoroço.
— Nada, que eu saiba. — Nada?! — Frioleira!
— Mas afinal o que é? — Ora!… A coleira, Com que à noite me prendem junto à
porta…
— Prender-te?! — o lobo exclama. — Não sais fora,
Não corres livre pela terra inteira
Quando te dá na gana, e a toda a hora?
— Nem sempre. Isso que importa?
— Tanto importa que toda a trincadeira
Com que me acenas, um tesouro embora,
Por tal preço não quero!
— O lobo finda,
Põe-se logo na perna, e corre ainda!

(Trad. de Francisco Palha)

Fábula de la Fontaine


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