Lápis Mágico

Lenda de Machim

A trágica história de amor de Robert Machim e Ana d’Arfet, que teria dado o nome à localidade de Machico, na Ilha da Madeira

Lendas e tradições de Portugal. Lenda de Machim ou Lenda do Amor Imortal

Em tempos que já lá vão, na Corte britânica, onde então reinava Eduardo III, o rei que criou a Ordem da Jarreteira, vivia, entre outros, um homem simples e bom, de sangue plebeu mas de alma nobre. Chamava-se Roberto Machim e gozava da amizade de fidalgos poderosos, que encontravam nele um fiel servidor.
Entre os numerosos amigos que a sua lealdade e honestidade conquistara, distinguia-se um certo D. Jorge, que se tornou seu companheiro inseparável.
Lutavam ambos, lado a lado, quando era necessário. E lado a lado se divertiam também. — Às vezes chego a pensar que não há lógica na vida…

— E porque pensais assim, D. Jorge?

O outro deixou de rir.

— Ora, conheço fidalgos que não merecem o brasão que usam… E conheço-te a ti, que não és fidalgo… e mereces um brasão! Roberto Machim encolheu os ombros, a enxotar um assomo de vaidade.

— Oh, D. Jorge… isso é um exagero de amizade!

— Não, Roberto… Podes acreditar no que te afirmo… Considero-te um exemplo entre todas as pessoas que conheço e tenho grande satisfação em ser o teu melhor amigo. Roberto Machim suspirou. Que havia de dizer mais? Que podia dizer mais? Olhou D. Jorge em silêncio, mas esse olhar exprimia toda a sua gratidão. Mal sabia ele que não tardaria em ter a prova cabal de tão bela amizade…

Pois um dia, tal como a tradição tem mantido através dos séculos, D. Jorge entrou alvoraçado nos aposentos do amigo. Alvoraçado e feliz. — Roberto! Arranja-te depressa, por favor… Tens de me acompanhar.

E perante o olhar intrigado do outro, explicou rapidamente:

— Chegou minha prima Ana de Harfet… Quero cumprimentá-la… mas preciso de ti…

— De mim?… Porquê, D. Jorge?

O fidalgo foi mais explícito:

— Ouve, Roberto… Tu sabes umas certas palavras… Usas sempre duma tal gentileza, tens um modo de dizer as coisas… que impressionas realmente… E eu desejo que minha prima Ana de Harfet fique impressionada… Compreendes? Um sorriso prazenteiro nasceu no rosto de Roberto Machim.

— Claro que compreendo!

O fidalgo voltou a excitar-se.

— Então, porque esperas?… Vamos!… Despacha-te!… Não temos tempo a perder…

Enquanto acabava de se vestir, Roberto Machim não reprimiu um comentário e uma pergunta:

— Que entusiasmo, D. Jorge!… Ela é assim tão formosa?

— Tu verás, Roberto, tu verás…

E Roberto Machim viu daí a pouco. Viu e ficou deslumbrado. Mais do que isso: enfeitiçado!

A prima de D. Jorge, a jovem e rica Ana de Harfet, era na verdade duma beleza extraordinária. Autêntico rosto de anjo em corpo de sereia.

— Ana… Quero apresentar-vos o meu melhor amigo… Roberto Machim. — Muita honra, senhor…

Devagar, como se rezasse, ele murmurou:

— Perdoai-me, senhora… se não encontro palavras para traduzir o meu encantamento… Mas quando se entra em êxtase, não se pode falar!

Surpreendida, Ana passeou o olhar entre ele e D. Jorge. Ruborizou –se. A voz tremeu um pouco:

— Lisonjeais-me deveras com tal apreciação…

— E pela minha honra vos juro que sou Sincero!

Esse foi afinal, conforme conta a lenda remota, o primeiro encontro dum longo e maravilhoso romance de amor, nascido entre duas almas que se sentiram mutuamente atraídas, desde o primeiro olhar. D. Jorge depressa compreendeu o que se passava. E ele, que também se candidatara ao coração de sua prima, logo cedeu lealmente o lugar a Roberto Machim.

— Eu vejo como os dois se amam… Nada mais há a fazer!

O amigo olhou-o bem de frente.

— Agradeço-vos mais uma vez, D. Jorge… E tendes razão… Nada mais há a fazer! Entretanto, o fidalgo aproveitou o ensejo para esclarecer a dúvida que lhe dominava o espírito.

— Só receio uma coisa, meu bom Roberto… Os pais de Ana de Harfet são demasiadamente severos nos preconceitos de linhagem…

O olhar do outro tornou-se mais duro.

— Compreendo… Eles não quererão misturar o sangue nobre de Harfet com o sangue plebeu de Roberto Machim…

E, logo, num impulso de fúria, gritou como que desafiando tudo e todos:

— Mas que nos importa isso? O nosso amor é mais forte do que todas as barreiras!

D. Jorge curvou a cabeça, olhando o solo. E disse baixinho, como que a falar para si próprio:

— Deus queira que eles não recorram a processos extremos para evitar esse amor… Deus queira!

E o que D. Jorge temia, aconteceu realmente… Os pais de Ana de Harfet, ciosos dos seus pergaminhos e compenetrados de que, por meios pacíficos, não podiam modificar a paixão avassaladora de sua filha, resolveram utilizar os tais processos extremos… Levando o caso até junto do próprio Rei, conseguiram que este ordenasse o casamento da jovem e bela Ana de Harfet com um dos fidalgos da corte, na cidade de Bristol.

Roberto Machim, ao tomar conhecimento de tal notícia, deixou ventar terrivelmente toda a sua cólera. Praguejou e uivou ameaças. E de tal modo o fez, que o Rei o mandou prender durante alguns dias, enquanto o casamento se preparava e realizava. Não foi fácil a tarefa. Roberto Machim estava disposto a resistir pela força. Mas acabou por ser dominado pelo número de adversários e não teve outro remédio senão submeter-se à vontade do Rei.

Quando saiu da prisão, encontrou à sua espera o bom e fiel D. Jorge. Uma única pergunta enchia o peito de Roberto Machim. O peito e o cérebro. E foi essa pergunta que ele atirou imediatamente ao amigo, mesmo antes de agradecer a sua dedicação:

— Como está Ana?

— Morrendo aos poucos…

Roberto cravou as unhas nas mãos até fazer sangue.

— Morrendo de amor…

D. Jorge deu-lhe lugar na sua carruagem e continuou:

— Sim… Ana morrerá se continuar em Bristol, onde agora vive com o marido. Nem parece a mesma!

Olhou o amigo. Este enchera-se de silêncio. De silêncio e de rancor. O rancor que se podia ler nos seus olhos.

— Sabes, Roberto? Ana tem sido extraordinária… Segundo se diz, o marido ainda nem sequer lhe tocou… Vivem absolutamente separados… Mas a saudade mata-a… Como ela gosta de ti, meu amigo!

Só então Roberto Machim pareceu despertar do seu torpor febril. Inclinou-se para o fidalgo.

— Quereis provar-me ainda uma vez mais a vossa amizade, D. Jorge?

O outro sorriu levemente.

— Para isso aqui vim… logo que soube que ias ser libertado.

Roberto Machim endureceu a voz:

— Julgais, acaso, que estou a ser vigiado?

— Não julgo… tenho a certeza!

— Então, por favor… ide vós a Bristol… Peço-vos que faleis a Ana… E sabei da sua parte se ela está disposta a fugir comigo para França.

— Fugir? Mas tu não quiseste fugir… mesmo quando soubeste que El-rei ia ordenar a tua prisão!

— Pois fugirei agora… Sim… fugirei pela primeira vez na minha vida… mas levando Ana comigo!

D. Jorge olhou-o, alarmado.

— Sabes o que estás a dizer, Roberto?

— Sei!

— Sabes o que arriscas?

— A minha vida e a vida de Ana!

Suspirou e completou o pensamento:

— A dela, que é a que mais me preocupa, tal como dissestes há pouco, já está em perigo… Quanto à minha, sem Ana, acreditai, nem é vida… Que arrisco pois, afinal?

O ar autoritário de D. Jorge atenuou-se:

— Tens razão, Roberto!… Vou deixar-te a esta esquina… Depois seguirei para Bristol e só voltarei de lá para te trazer notícias seguras.

Houve uma pausa breve.

— Escuta, Roberto… Prepara um barco. Aqui tens dinheiro!

Um gesto de recusa. Outro gesto de insistência.

— Não quero dinheiro!

— Aceita!… Depois mo devolverás, quando puderes… Por agora bem sabes que, para arranjar gente que te leve pelo mar até França, é preciso quase uma fortuna.
Venceu a insistência.

— Que Deus vos pague, D. Jorge!

Quando chegou o dia marcado para a grande aventura, o coração de Roberto Machim parecia um cavalo à desfilada. Faltava apenas transpor a pequena ponte, entrar no barco, onde já se encontravam doze homens às suas ordens, e lá iria encontrar, também, a bela, a desejada, a inesquecível e querida Ana de Harfet. Que manhã maravilhosa!

Os olhos verdes de Roberto Machim pareciam agora da cor do mar. Cor de desespero ou cor de esperança?…

Ana de Harfet, a mesma de sempre, bela e atraente, esperava-o. Mas o seu rosto estava pálido, sulcado de lágrimas.

— Roberto! Meu adorado Roberto! Pensei que morreria sem voltar a ver-te!

Ele tentou dominar a comoção. Mas não o conseguiu. Os seus olhos também se embaciaram. E a sua voz tremeu também.

— Oh! Ana! Minha maravilhosa Ana.

E apertava-a. Febrilmente. Doidamente. Queria ter a certeza absoluta de que não estava a sonhar.

— Meu amor… Meu único amor…

Ela mal podia respirar. Mas nada dizia. E ele compreendeu de súbito que estava a abusar da sua força. Afrouxou então o abraço e fitou-a bem no rosto.

— Como estás magra e pálida!

Ana de Harfet sorriu. Um sorriso débil.

— Já posso morrer, porque voltei a ver-te! E sinto que me amas, como tinhas jurado amar-me! No olhar de Roberto Machim voltou a brilhar essa expressão altiva e quase desdenhosa que era a sua bandeira.

— Agora, Ana, serás minha… Só minha… e desafio mar e terra a que nos separem! Por momentos calou-se, de rosto erguido, de olhar em fúria, num verdadeiro repto às forças da Natureza. Depois, gritou para a tripulação uma ordem, que era também um desejo:

— Vamos… A nossa rota será agora a caminho da França!

Talvez a ordem se tenha cumprido. Mas, conforme nos conta a tradição, o desejo nunca se realizou…

Batidos pela tempestade — como se a Natureza quisesse responder ao desafio ousado de Roberto Machim — os tripulantes não conseguiram dominar a embarcação e foram levados à deriva, nem eles sabiam para onde…

Fosse pela maldição do ódio ou fosse pela fatalidade do destino — suportaram a mais terrível e brutal das tempestades.

De joelhos, vergada pela tormenta e pelo pavor, Ana de Harfet suplicava: — Piedade, Virgem Santíssima, tende piedade de nós!

E foi possivelmente a força das lágrimas e das preces da jovem e bela Ana de Harfet que conseguiu chegar ao Céu e amainar a fúria da Natureza.

Mas Ana não resistiu. Tombou, no delírio da febre. E só muitos dias depois voltou à realidade da vida…

Pareceu surpreendida. O mar estava calmo. O Sol brilhava. Teria sido tudo apenas um pesadelo?

Mas logo viu o rosto de Roberto inclinado sobre o seu próprio rosto. Angustioso. Excitado. — Sentes-te melhor?

Ela tentou sorrir.

— Sim… estou melhor… Ainda bem que o vento serenou!

Os seus olhos buscaram em vão a linha do horizonte.

— Onde estamos?

Ele cerrou os dentes, hesitou antes de responder.

— Não sei, querida!… Este piloto percebe tanto da arte de navegar como eu… Andamos à deriva… E já quase não temos mantimentos!

Ana de Harfet fechou os olhos. Talvez cansada. Talvez pensativa. Depois, voltou a perguntar.

— E há quantos dias andamos assim?

— Há dez dias!

O olhar dela esgazeou-se, numa aflição íntima. Repetiu como num eco:

— Há dez dias?… E quando acabará isto?

Ele procurou disfarçar a emoção que o dominava.

— Não te inquietes… Eu sinto-me bem… enquanto estiver ao pé de ti!

Ana voltou a sorrir.

— Meu pobre cavaleiro… não te entendes com o mar!

Roberto Machim olhou-a, sério e decidido.

— Hei-de domá-lo, como se fosse um cavalo selvagem!

Calaram-se. O ritmo do barco, agora brandamente embalado pelas ondas, dava-lhes uma dormência de sentidos.

Ela murmurou:

— De qualquer forma, sinto-me feliz, Roberto… Muito feliz!

Mas uma voz alvoraçada partiu o diálogo. Era D. Jorge que corria à frente dos outros tripulantes.

— Roberto! Ana! Estamos salvos. Venham ver… Além há terra!

E daí a pouco, conduzida a embarcação nesse sentido, os mareantes viram avidamente uma ilha coberta de arvoredo, que mais lhes dava a ideia de uma paisagem do Paraíso. Para lá se dirigiram, ancorando numa bela enseada, como que talhada ali, no Oceano, por inspiração divina.

Roberto Machim sentia-se novamente vencedor da Natureza.

— Vamos descer, amigos… Ana virá depois… Primeiramente temos de averiguar se a terra é segura…

D. Jorge adiantou-se uns passos.

— Eu acompanho-te… Quero ser o teu companheiro, nas horas boas e más.

Desta vez, o outro assentiu sem relutância:

— Pois seja… Obrigado, amigo!

A sua voz soou como um clarim de marcha:

— Vamos!

E assim desceram, e assim pisaram terra, e assim abriram os segredos dessa ilha que lhes pareceu de sonho…

Logo se instalaram, para construir o seu novo mundo. Ana de Harfet foi levada com todo o cuidado. Estava muito fraca, mas deu a impressão de que revivia ao sentir-se em terra.

— Roberto… como isto é belo!

Ele ajoelhou à sua beira.

— Sim, meu amor.. Aqui ficaremos, se quiseres… Caça e pescaria não faltam. Frutos também não… Será este o cenário do nosso amor.

Ana quis responder mas não conseguiu. Faltaram-lhe as palavras. Ficou num sorriso. Sorriso vago e misterioso.

O mesmo sorriso com que olhou para Roberto Machim, pela última vez, daí a poucos dias. — Ana… que tens?… As tuas mãos estão muito frias… Vou aquecê-las nas minhas…

Era tarde, Ana de Harfet, a bela, a irresistível Ana de Harfet sofrera já demais para resistir a tão violentas emoções.

E ali se finou, num fim de tarde melancólico quando o Sol desaparecia no horizonte do mar. Dupla agonia…

Aparvalhado, quase louco, Roberto transformou-se num farrapo humano. Deixou que enterrassem a pobre e linda Ana de Harfet e ficou junto da sua campa, sem nada fazer, sem nada dizer.

Na manhã seguinte, D. Jorge e os outros vieram encontrá-lo de bruços sobre a campa rasa, chorando como uma criança.

O seu melhor amigo correu para ele.

— Roberto… então!… Coragem!…

Mas o outro afastou-o rudemente, com o resto das suas forças.

— Deixa-me!

E voltou a cair sobre a campa, chorando e soluçando.

— Não posso mais… Ana, não posso viver sem ti… Leva-me… Leva-me contigo, meu amor!…

Numa última tentativa, D. Jorge ajoelhou junto dele. Deixou que serenasse. Quando o viu quieto e silencioso, voltou a falar:

— Vamos, Roberto… A vida continua… Tens de ser forte, como sempre foste!
Esperou qualquer reacção. Alarmou-se. De súbito agarrou-se desesperadamente ao amigo.

— Roberto!… Roberto!… não me ouves?… Que é isto, meu Deus? Tu morres?

E escutou apenas, num sopro de voz:

— Sim… morro, sim… morro para me juntar a ela!

Roberto Machim foi enterrado ali mesmo, junto daquela a quem sempre adorara. E sobre a campa de ambos, ficou somente uma tosca cruz de madeira (da madeira que enchia a ilha) a assinalar para sempre aquele amor imortal…

Ainda hoje se diz que o nome de Machico, a bonita vila da Ilha da Madeira, deriva precisamente do nome de Roberto Machim, que lá aportou um dia com a sua bem-amada Ana de Harfet e lá ficou para sempre como símbolo de uma paixão imortal!

Bibliografia
MARQUES, Gentil, Lendas de Portugal, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume I, pp. 105-112


Outra Versão A lenda de Machico

Entre os séculos XIV e XV, o cavaleiro inglês Robert Machim e a sua amada, Ana de Arfert, fugiram de Inglaterra para escapar a um casamento imposto pela família da jovem.

No entanto, uma violenta tempestade desviou o barco da rota prevista para França, deixando-os à deriva até avistarem a Ilha da Madeira.

Desembarcaram na atual baía de Machico para recuperar forças, mas nova tempestade arrastou a embarcação, deixando-os isolados.

Debilitada, Ana faleceu pouco depois, seguida por Machim, que morreu de desgosto após erguer uma cruz sobre a sepultura da amada.

Os restantes companheiros, que sobreviveram refugiados no tronco de uma árvore gigante, acabaram capturados por mouros e levados para África, onde um deles viria a ser resgatado e contaria a saga aos portugueses.

Quando os navegadores lusos chegaram à ilha anos mais tarde, encontraram a cruz e a inscrição deixada pelos sobreviventes, batizando a localidade de Machico em honra do cavaleiro e erguendo ali a primeira capela da ilha.


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